Apelo

19:56

Tínhamos o terrível hábito de nos enganarmos todo fim de tarde. Criávamos mil e uma desculpas para não estarmos juntos. A verdade é que já não nos amávamos há muito tempo e tardávamos por encerrar aquilo já encerrado pelo tempo. E os fins de tarde já eram o mínimo da ausência que pedíamos um do outro. 
Causava dor, o pensar em rever aquele que tanto me amou um dia. Eu não o amava mais. E enganava a todos e principalmente a mim, permanecendo naquilo que já não me dava dúvidas. Já não estávamos mais juntos há muito tempo. E teimávamos em manter a ideia de que não estávamos sozinhos. Porque essa era a verdade negada: estar só.
A solidão devora, mas enganada é suave. Solidão acolhida, entendida, vivida, plenificada... É dolorosa, nos tira dos eixos. Por tudo isso, mantivemos a vaga lembrança do que vivemos outrora, como se fosse algo do nosso presente.
Nos enganamos até o dia em que a dor no peito era maior do que nesses dias de ausência escolhida. E nossos corpos clamavam pela liberdade tolhida, além de nossas almas presas a uma mentira. Fomos obrigados, então, a dar por fim a uma mentira que me mantinha distante dos olhares reprovadores de tantos.
Mas enfim, senti-me livre para fazer outras escolhas, para alimentar a minha alma com algumas verdades.


Magda Albuquerque

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2 comentários

  1. aí que texto LINDO! parabéns, é tão raro falar de um fim de relacionamento com tanta delicadeza assim, amei!

    sempre estarei por aqui!

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  2. Fico feliz que tenha gostado.
    Obrigada por passar por aqui.

    Um beijo!

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